Publicado por: neloreirca | 9-Abril-2009

O que está por trás da tipificação de carcaças?

Atualmente ouve-se muito sobre tipificação de carcaças para atender aos novos mercados para a carne brasileira. Há alguns pontos que precisam ser discutidos para que o procedimento possibilite rentabilidade ao produtor e segurança alimentar ao consumidor.

Em todos os países, o movimento pela classificação de carcaças não resistiu à tentação de subordinar as classes a uma hierarquia, ou seja, a tipificação pretende dizer ao mercado o que tem melhor e o que tem pior qualidade. E o faz sem a preocupação de provar tecnicamente o que está proclamando.

Carcaças de novilhos IRCA com 22 meses de idade.

Carcaças de novilhos IRCA com 22 meses de idade.

Para se falar de carcaça bovina, é bom lembrar, de início, que existem várias maneiras de se produzir carne. Diferentes e variados sistemas são adotados em diferentes países: Irlanda, Inglaterra, França, Austrália, Canadá, EUA, Uruguai, Argentina, Brasil.

É também importante dizer que esses sistemas se diferenciam entre eles quanto ao tempo que os animais permanecem nos pastos e em confinamentos, à variedade das dietas utilizadas, ao percentual de volumoso e concentrados, ao uso ou não de anabolizantes, aditivos etc. As raças que geram as carcaças também diferem quanto à qualidade de sua carne, no tocante a atributos intrínsecos, como maciez, sabor, quantidade e tipo de gordura (se entremeada ou não, escassa ou mais abundante).

A forma como cada sistema atua na produção dos bois tem conseqüências direta sobre esses atributos e sobre a lucratividade dos elos que compõem a cadeia: produtores, frigoríficos, distribuidores.

Na definição dos critérios para a tipificação, certamente os elos mais organizados tentarão, graças a seu maior poder, impor suas regras quanto ao que é melhor, com o objetivo de salvaguardar suas margens. E pretenderão determinar como ideais o alto peso das carcaças (para melhorar seus rendimentos industriais, pois se auto-intitulam uma indústria de desmontagem). Também afirmarão que as churrascarias querem peças maiores, o que pode até ser verdade quando esses estabelecimentos também estão preocupados exclusivamente com seus lucros e não com um bom serviço aos cliente. Churrascaria digna desse nome, com padrão de qualidade no atendimento, quer é cortes de animais jovens, padronizados, macios e suculentos.

Vez por outra se ouve dizer que a carne brasileira é considerada por alguns importadores como não merecedora da qualificação de boa qualidade. Mas ninguém define com clareza e precisão que qualidade está sendo procurada. O conceito de qualidade, por sinal, é muito questionável. Há palestrante conceituado que aponta o zebuíno como produtor de uma carne com pouca maciez e ausência de marmorização. No entanto, já se viu que o único corte de um bom Nelore que requer maior força de cisalhamento é o contrafilé. Nos demais, como a alcatra, o filé, a picanha, a maminha, a fraldinha, não há diferença estatística na diferenciação da força de cisalhamento, ou seja, a maciez desses cortes é semelhante à dos taurinos, com a vantagem de oferecer muito mais sabor.

Boa mãe com carcaça de bom rendimento de carne.

Boa mãe com carcaça de bom rendimento de carne.

Será que essa diferença no contra filé é suficiente para denegrir o padrão de qualidade da carne brasileira? Na França, pátria da culinária de alto padrão, um dos cortes de carne que agrega maior valor no Limousin é proveniente do abate de vacas com 4 a 5 anos de idade, portanto de menor maciez. Justificativa dos gourmets: abrem mão da maciez para ganhar em sabor.

Impor padrões estrangeiros à carne brasileira me parece pouco razoável. Primeiro porque sempre restará a dúvida: todos os importadores estão preocupados ou estão dispostos a pagar mais pela marmorização? E os criadores sabem que, para colocar marbling, ou gordura intramuscular na carcaça do zebu, terão de mudar a forma de produzir carne no Brasil. Mudando a forma de produzir, a carne do Brasil perderá o selo de natural, saudável e custará mais cara.

Não custa imaginar que isso pode ser altamente interessante para nossos concorrentes. Seremos menos competitivos e certamente perderemos mercado. E aí sim, estaremos dando munição aos detratores da carne vermelha. O próprio Departamento de Saúde Americano já pôs sob suspeição essa carne marmorizada. Critica a forma de obtê-la, em confinamentos que requerem dietas ricas em grãos, para oferecer animais cada vez mais pesados ao abate. Com certeza, dessa carne, o consumo deverá mesmo ser limitado a 500 gramas/adulto/semana.

Pastagem em harmonia com o cerrado.

Pastagem em harmonia com o cerrado.

Na avicultura já há sinais de que o mercado exigirá protocolos de produção mais saudáveis. O Mc Donalds e a Unilever (multinacional que utiliza 650 milhões de ovos/ano na Europa, que para ter atendida essa demanda, serão necessárias 2,5 milhões de galinhas), a partir de 2010, só irão comprar ovos de poedeiras criadas soltas (free range).

Por tudo isso, é bom analisar bem o que se quer em termos de carcaça bovina no Brasil. Existe um grande e inexplorado mercado para carne saudável, produzida exclusivamente a pasto, cuja produção o Brasil tem todas as condições de liderar no mundo, e sem competição.

É possível agregar valor a essa carne para mercados, onde os consumidores discordam filosoficamente do sistema de produção com longa duração em confinamentos e dietas recheadas de aditivos. Existem inúmeros mercados para carne de alto valor agregado para os quais, com nossos recursos genéticos e conhecimento de manejo, podemos produzir carne com adequado acabamento a pasto ou em confinamentos com 60-90 dias de duração.

Enfim, devemos ter em mente que há uma grande variabilidade nos mercados importadores, e o Brasil tem condições de ser seu supridor preferencial, com carne que apresente maior ou menor grau de acabamento, mas sempre produzida com certificação de boas práticas.

Por isso, o sistema de tipificação de carcaça a ser imposto no País precisa primar pela simplicidade de critérios utilizados. Seu objetivo deverá oferecer parâmetros que orientem a produção e comercialização da carne bovina, com respeito aos diferentes sistemas de produção e atributos, sem pretender determinar o que é de melhor qualidade, separando o que é diferente e agrupando o que é semelhante.

No caso específico da carne bovina, não se pode esquecer que a demanda acontece tanto pelos atributos intrínsecos de qualidade como, maciez, sabor e quantidade de gordura quanto pelas características de ordem ou natureza voltadas para as formas de produção, processamento (a velocidade de resfriamento influencia muito mais a maciez do que outros fatores inerentes à raça, idade, serem castrados ou não), comercialização (dimensionamentos das porções, pré-prontas) etc.

A meu ver, a tipificação deve classificar as carcaças das principais categorias, ordenando-as segundo outros indicadores tradicionalmente utilizados nas avaliações de gado de corte, como a conformação, musculosidade e precocidade no acabamento de gordura. Em tese, as melhores carcaças dariam carne de melhor qualidade, associada a maior rendimento de desossa, condição que favorece o abate de animais jovens com qualidade e a pasto.

O sucesso da carne brasileira depende de um excelente trabalho de marketing (diferentemente do que muitos pensam, não significa propaganda e sim mercadologia, estudo de mercado), desenvolvimento de novos sistemas de produção e de distribuição, com atenção total às exigências de um mercado atento às práticas sustentáveis não só do ponto de vista econômico, mas também social e ambiental.

Novilhos nelore IRCA com 17 meses de idade e boa carcaça.

Novilhos nelore IRCA com 17 meses de idade e boa carcaça.

A crescente concorrência entre países e entre fontes alternativas de proteína tem estimulado as indústrias a dar atenção crescente às exigências do mercado. E, cada vez mais, o consumidor moderno deixa de comprar produtos para comprar “conceitos”.

Na produção, como de resto em toda a cadeia, o que inclui a tipificação das carcaças, o fundamental é que a implementação de sistemas operacionais, processamento e comercialização atenda aos “conceitos” de segurança alimentar, respeito às condições sociais dos que trabalham e preservação do meio ambiente. País ou indústria que não se adequar a essa realidade, em breve estará fora do mercado.

Um caso de sucesso em pastejo continuo sustentável

Por Maristela Franco

Por detrás da fala mansa, que guarda forte acento pernambucano, apesar dos 32 anos vividos no interior de Goiás, esconde-se um espírito inquieto. José da Rocha Cavalcanti não gosta de idéias prontas. Tudo em sua Fazenda Providência do Vale Verde, localizada no município goiano de São Miguel do Araguaia, é diferente, apesar de a propriedade, à primeira vista, assemelhar-se a tantas outras da região.

No pastejo contínuo, Cavalcanti privilegia o desempenho individual dos animais.

No pastejo contínuo, Cavalcanti privilegia o desempenho individual dos animais.

Cavalcanti acredita no pastejo contínuo, quando muitos técnicos associam esse método com baixa produtividade e pouco lucro. Também defende a divisão do rebanho em lotes pequenos para preservar o bem-estar dos animais. Não desmama os bezerros, processa seu próprio sal mineral e nunca usou um litro de herbicida.

Na varanda da sede da fazenda, ele explana suas idéias calmamente, em meio ao calor modorrento de 38 graus à sombra, típico dos cerrados goianos no auge da seca.

“Muita gente vê o pastejo rotacionado como uma panacéia, sem considerar os riscos inerentes a esse modelo, que exige maiores investimentos em infra-estrutura, além de ser dependente de adubos, cujos preços dobraram entre 2007 e 2008. Aqui – aponta as pastagens desidratadas pelo sol –, eu tiro carne de pedra. Faço isso, sem aumentar a lotação e os custos, mas favorecendo o desempenho dos animais, que chegam a ganhar 1,4 kg/cab/dia nas águas, exclusivamente a pasto”, diz o pecuarista de 55 anos, agrônomo, natural de Recife, que, apesar das dificuldades, produz anualmente 5.340@ líquidas em801 hectares de pastagens, ou 6,65@/ha, contra 4@ da média nacional.

“Os adeptos do  rotacionado pensam apenas em produtividade de massa forrageira e altas lotações. Com isso, criam uma imagem de eficiência. Eu pergunto, porém, o que é mais vantajoso: produzir 10.000@ gastando 9.000@ ou produzir 5.000@  gastando 3.000@?”, indaga Cavalcanti.

“Não busco maior produção de carne/ha e sim maior lucratividade/ha, dentro da minha realidade. Eis o ‘x’ da questão, freqüentemente menosprezado pelos defensores do atual modelo de intensificação pecuária”, ressalta o produtor.

Segundo ele, o rotacionado tem seus méritos, mas não deve ser visto como única alternativa de manejo de pastagens, muito menos utilizado de forma indiscriminada, sem avaliação econômica. “Para minhas condições edafoclimáticas e meu sistema de produção, baseado na cria/recria/engorda, o pastejo contínuo com carga animal variável é a melhor opção”, afirma Cavalcanti.

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DESAFIO

A Fazenda Providência do Vale Verde tem 1.100 ha e está encravada no Vale do Araguaia, próxima à Ilha do Bananal, na divisa de Goiás com Tocantins e Mato Grosso. Essa região tem índice pluviométrico de 1.600 mm/ano, mas as chuvas se concentram entre 15 de outubro e 15 demarço. Além disso, as temperaturas são elevadas (30 a 38°C) e a altitude, baixa (200-300 m), fator pouco favorável ao plantio de culturas graníferas como o milho.

“Em 1976, quando meu pai, Carlos da Rocha Cavalcanti, decidiu vender as terras que possuía no Nordeste e buscar novas fronteiras, deixou-me escolher o lugar onde iniciaria minha vida de pecuarista, já que eu havia acabado de me formar em agronomia, pela Universidade Federal de Viçosa (MG). Fui ao Pará, ao Mato Grosso, mas simpatizei com São Miguel do Araguaia, justamente pela aptidão pastoril de suas terras”.

Após a morte do pai, coube-lhe por sorteio uma gleba tipicamente de cerrado, com solos muito ácidos (pH de 4,2) e pouco férteis. “Ao examinar análises de meus solos, um técnico me perguntou, brincando, se neles nascia alguma planta”, conta o agrônomo, explicando que, para corrigir esse perfil químico é preciso gastar muito dinheiro.

Como a fazenda tem 800 hectares de pastagens e se estima que sejam necessárias 4 t/ha de calcário para correção da acidez, os gastos apenas com esse insumo, sem considerar mão-de-obra e combustível, seriam de R$ 243.200, com a tonelada a R$ 76. Já a despesa com adubos ultrapassaria R$ 472.800.

Esses valores somados equivalem a quase 500 bois gordos. A propriedade fica a 525 km de Goiânia, o que torna os insumosmais caros, devido ao frete.

Mesmo que fizesse esses investimentos aos poucos, Cavalcanti teria de pedir empréstimo a bancos, incorporando risco a seu negócio. “Quando se entra nessa roda-viva, não dá pra desistir no meio do caminho, pois é preciso honrar os compromissos; colocar mais animais no pasto, para aproveitar toda a massa forrageira produzida; confinar ou investir mais em suplementação na seca, etc. 

É muito arriscado fazer isso numa região com regime de chuvas curto, ou seja, onde se tira menor proveito da adubação nitrogenada. A não ser que eu instale um pivô na fazenda. Mas aí já começamos a extrapolar o limite do razoável, pois sou um pecuarista de porte médio e não tenho outras fontes de renda, ao contrário dos empresários que se tornam fazendeiros da noite para o dia e decidem desembolsar milhões em projetos hipertecnificados”.

Machos de 25 meses, em pasto de braquiarão, no auge da seca de 2008.

Machos de 25 meses, em pasto de braquiarão, no auge da seca de 2008.

RENTABILIDADE

José Cavalcanti sabe que está indo contra a corrente; afinal, até o governo federal defende a intensificação pecuária para diminuir pressões sobre a Floresta Amazônica. Mas não liga.

Nem quando o chamam de romântico e idealista, em tom condescendente ou provocativo. “A intensificação quase sempre é vista de forma unilateral. Muita gente se esquece de que, ao colocarmos mais bois por hectare, poluímos ainda mais o planeta, pois a emissão de CO2 torna-se maior do que o volume captado pelas pastagens. Sem falar na contaminação do solo e fontes hídricas pelo uso intensivo de adubos e agrotóxicos.

Quantos quilos de carne podemos produzir por hectare de maneira sustentável, com boa lucratividade? Essa é a conta que me interessa”.

Até 2006, José da Rocha Cavalcanti fazia confinamento, mas em 2007 e 2008 ele preferiu vender parte dos animais na recria, pois o preço do boi magro estava compensador e os custos de arraçoamento muito elevados (veja análise econômica de seu sistema de produção em quadro à parte). Segundo ele, a fazenda precisa produzir riqueza e não dívida e estresse para o proprietário, quando este vê sua conta fechar no vermelho. “Quem tem pouca terra e depende exclusivamente da pecuária para sustentar a família, além de manter seu quadro de funcionários motivados, com carteira assinada e bons salários, precisa planejar bem suas ações. Eu estou formando meu quinto filho com esses 800 hectares”, conta orgulhoso.

Rentabilidade de 8,6% sobre o patrimônio

Em setembro deste ano, o rebanho de Cavalcanti somava 1.170 cabeças, das quais 55,5% eram fêmeas com mais de dois anos. Pertencente à quarta geração de selecionadores da marca Nelore Irca, que neste ano comemora 93 anos de existência, ele comercializa anualmente 60 tourinhos e 40 fêmeas registradas. Mas, ao calcular sua rentabilidade, faz questão de excluir o valor agregado pela genética às 5.340@ líqüidas que produziu em 2007, para possibilitar comparações com outros projetos de pecuária de corte.

Na análise econômica realizada por Alexandre Mendonça de Barros, professor da Fundação Getúlio Vargas e consultor da MB Agro, essas  5.340 arrobas foram cotadas a preço de gado comercial, pela praça de Goiânia   (R$ 85/@, até 15 outubro).

“Chegamos a um faturamento anual de R$ 440.706, ou seja, R$ 550/ha. Como o custo operacional foi de R$ 303.080, o pecuarista obteve receita líquida operacional de R$ 137.626 (retorno de 31,2%). Considerando-se o valor da terra na região de São Miguel do Araguaia (R$ 2.000/ha), a rentabilidade sobre o patrimônio foi de 8,6%.

Para uma propriedade de porte médio, que faz ciclo completo e conta com baixíssimo estoque inicial de recursos, esse é um resultado muito bom”, diz o economista.

Segundo o anuário Anualpec, da Consultoria AgraFNP, em 2007 as fazendas de porte semelhante (500 a 800 UA), que se dedicavam à cria/recria/engorda extensiva (no caso, pastejo contínuo tradicional, sem carga variável), registraram receita líqüida operacional de 25% e rentabilididade sobre o patrimônio de 1,3%. Já naquelas que faziam ciclo completo intensivo, esses índices foram de  -22%  e  0,9%, respectivamente.

Mendonça de Barros enfatiza que um sistema de produção deve ser entendido a partir de suas restrições, como baixa disponibilidade de capital, meio ambiente adverso etc. “Freqüentemente se afirma que, se não forem realizados investimentos e utilizados insumos na atividade pecuária, ela tenderá a desaparecer por sua baixa eficiência. Essas afirmações padecem de sentido econômico. Não é correto fazer generalizações sobre sistemas de produção. Sua eficiência deve ser avaliada a partir das restrições de capital de cada propriedade. Nesse sentido, a Fazenda Providência do Vale Verde é um exemplo de pecuária eficiente no Brasil”.

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Carga animal variável, ajustada à forragem

As primíparas recebem cuidados especiais, para que voltem a emprenhar logo.

As primíparas recebem cuidados especiais, para que voltem a emprenhar logo.

O método de pastejo contínuo tem sido utilizado há gerações e ainda predomina em 90% das fazendas de gado de corte do País. Mas a maioria de seus adeptos faz manejo extensivo, ou seja, não ajusta a carga animal à forragem disponível nos pastos, em geral enormes, levando-os à degradação. José da Rocha Cavalcanti não faz parte desse clube. Ele dividiu seus 801 hectares de pastagens em piquetes relativamente pequenos (veja descrição do Método Irca na página seguinte). Além disso, criou um esquema de monitoramento das pastagens, com base em notas ou escores, que lhe permite verificar se a lotação está adequada ou não à oferta de forragem.

Cavalcanti faz pastejo contínuo com carga variável, método que o professor Sila Carneiro Filho, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, considera tão bom quanto o rotacionado, quando bem-feito. “Se o produtor ajusta a lotação à oferta de forragem; se não deixa a gramínea passar do ponto nas águas, por falta de animais para consumi-la; se intuitivamente respeita as necessidades da planta, quando chove abaixo do esperado; se não castiga o capim no inverno, colocando na área mais gado do que ele suporta, o pastejo contínuo dá resultado positivo e pode sustentar boas lotações”, afiança.

Equívocos comuns, segundo o Prof. Sila Carneiro Filho da ESALQ:

1º) Uso do termo “sistema” para definir modalidades de pastejo.
Segundo o professor Sila, sistema é um conjunto de fatores (clima, solo, plantas, animais, infra-estrutura, insumos etc.) organizados para a produção. O termo correto é método de pastejo ou, para ser mais preciso, método de colheita de forragem.

2º) Uso do termo “pastejo contínuo” sem considerar que…
Não existe colheita contínua de forragem por parte dos animais, o que existe é presença contínua desses animais na área. Um perfilho (unidade básica de crescimento da planta) somente é visitado a cada 30 dias nesse método de pastejo, devido à menor lotação por hectare.

3º) Confusão de “pastejo contínuo” com extensivismo.
A maioria dos pecuaristas pensa que fazer pastejo contínuo é colocar um grupo de animais numa área e largá-los lá, sem monitoramento, sem meta nenhuma. Isso, na verdade, é ausência de método, diz Sila, é puro extrativismo dos recursos naturais disponíveis.

É verdade que o risco de errar é menor no rotacionado, afirma o professor. “Se o pecuarista tem 30 piquetes e usa um deles a cada dois dias, estará concentrando os animais em um/trinta avos da fazenda. Caso cometa algum erro de manejo, ele poderá corrigi-lo no dia seguinte, evitando danos ao restante da área. No rotacionado, as mudanças são mais bruscas, mais visíveis. Em um/dois dias, o capim passa, digamos, de 1 metro de altura para 30 cm. Já no pastejo contínuo, é preciso ter um olho muito bom, pois as mudanças na pastagem são sutis e todos os piquetes ficam ocupados ao mesmo tempo, todo o tempo, exigindo maior atenção do manejador”, diz Sila.

OLHO DE ÁGUIA

Na Fazenda Providência do Vale Verde, o olho que enxerga essas mudanças sutis é o do capataz Donizete dos Reis. Ele percorre a propriedade, observando os pastos e lhes conferindo notas de 1 a 9. O pasto considerado ideal é o de nota 5, que apresenta a maior quantidade de folhas disponíveis para alimentação dos animais. As piores são as de notas 1 (rapado) e 9 (passado). As demais são intermediárias: quanto mais próximas de 5, melhores; quanto mais próximas dos extremos, piores.

Hoje, o olho de Donizete está tão treinado que ele dá notas partidas: 4,5; 7,5 etc. O fato de os piquetes serem relativamente pequenos ajuda nessa avaliação. A freqüência do monitoramento varia de acordo com a estação do ano. Na época de maior crescimento das gramíneas, realiza-se uma inspeção a cada 10-20 dias; na seca, a cada 40 dias. Se o clima se comporta de forma diferente do previsto, encurta-se o intervalo de tempo entre as “leituras”.

Além do pasto, os bovinos também têm seu escore corporal avaliado por meio de notas. Um animal magro recebe nota 1 e um gordo, nota 5. “Criamos também uma forma de pontuar a média dos lotes, com registros de possíveis variações. Por exemplo: se o lote tem nota 3, mas nele encontramse vacas de escore 5 (muito gordas), nós registramos na planilha 3/5”, explica José Cavalcanti.

Esse sistema de dupla avaliação é fundamental para o bom manejo dos piquetes, que são formados principalmente com andropógon (69% da área de pastagem) e braquiarão (17,85%), com alguns pequenos módulos de tanzânia, mombaça, massai e quicuio. “Desenvolvemos um conhecimento instintivo do comportamento desses capins. Claro que é possível estimar a massa forrageira disponível no pasto com ajuda de instrumentos, como o quadrado ou o disco medidor australiano, mas preferimos trabalhar com parâmetros visuais, que facilitam a tomada de decisões. Se um pasto e seu lote recebem notas baixas, é porque a carga está alta, exigindo medidas corretivas, como a substituição dos animais por outros mais leves. Se ambos (pasto e lote) obtêm boas pontuações, é porque acertamos no manejo”, diz o pecuarista. 

Prescrição padronizada de manejo evita confusões

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*Método descrito com base nas regras estabelecidas pela Society for Range Managment. Os traços e os dois pontos não têm conotação matemática, apenas servem para separar os números.

metodo-pastejo-convencional

Devido às diversidades edafoclimáticas e à complexidade dos sistemas de produção no mundo, existe tamanha quantidade de métodos de pastejo que a Society for Range Managment, instituição norteamericana que se dedica ao estudo da ecologia de pastagens, sugeriu que eles fossem descritos de forma padronizada, utilizando-se uma sequência numérica separada por um traço, uma vírgula e dois pontos, que neste caso não têm função aritmética
(veja ilustração).

Dessa forma, qualquer técnico ou pecuarista poderá visualizar com facilidade os itens básicos do método de pastejo usado em determinada fazenda, evitando confusões.

José da Rocha Cavalcanti trabalha com 50 pastos, de 5 a 30 ha, e um lote de animais por pasto durante os 365 dias do ano, ou seja, com zero dias de descanso.

A divisão das pastagens em 50 piquetes não é casual. Tem a ver com o tamanho ideal do lote, que ele estipulou em no máximo 30 cabeças. Com base nesse critério, a área da pastagem pode variar de 15 ha a 25-30 ha, dependendo da fertilidade do solo, do clima local, do tipo de gramínea, etc. O importante é que o piquete tenha capacidade de suporte para pelo menos 10 anos. 

SEM CANSAÇO

A meta de José Cavalcanti é evitar que as gramíneas recebam pontuação baixa e tenham de ser poupadas ara recuperação.

 “Meus pastos não descansam porque não cansam”, brinca ele, garantindo que o pastejo contínuo também não gera desperdício de forragem, ao contrário do que muitos pensam. O professor Sila Carneiro
concorda. Segundo ele, a perda de forragem deve-se à ineficiência na colheita do capim, não ao método de pastejo.
Por exemplo: se o produtor rotacionar um piquete de mombaça com período de descanso fixo de 30-35 dias, colherá forragem velha e de baixa qualidade, como também ocorre com os adeptos da “fartura” (leia-se sobra de capim) no pastejo contínuo.

Sila frisa que existem muitos equívocos em manejo de pastagens. Um dos mais comuns é considerar métodos de colheita de forragem como antagônicos. Tanto o rotacionado e quanto o contínuo podem ser técnica e economicamente viáveis, dependendo do sistema de produção, da capacidade de administrar riscos e da perícia do manejador. Uma forma de errar menos, diz o professor, é guiar-se pela altura do capim. Pesquisas conduzidas pela Esalq mostraram que o braquiarão sob pastejo rotacionado, por exemplo, deve ser colhido quando a sua altura atingir 25 cm, retirando-se os animais da área assim que a altura recuar para 10-15 cm. Sob pastejo contínuo, o ideal é manter o capim sempre a 20-40 cm do solo.

Nos dois métodos, o uso da pastagem pode ser mais ou menos intenso. “O que importa é administrar bem os recursos disponíveis. Se o pecuarista adubar, irrigar e colher mal a forragem, desperdiçará insumos e terá prejuízo. Trabalhar com forrageiras adequadas a cada sistema também ajuda bastante. Os panicuns, por exemplo, não são indicados para pastejo contínuo, pois precisam de um período de descanso para recompor suas reservas nutricionais e respondem bem à adubação nitrogenada, por isso se constituem em boa opção para quem faz colheita rotativa de forragem com base nessa prática”, diz o professor.

LOTAÇÃO

José Cavalcanti não se opõe à adubação em si. Já adubou moderadamente seus pastos de tanzânia e mombaça, que utiliza para alojar categorias mais exigentes, como as primíparas. Contudo, não admite dependência excessiva de insumos. Prefere soluções mais baratas e sustentáveis. Por exemplo: nunca calcula a lotação dos pastos considerando o consumo de 100% da forragem disponível; deixa sempre um percentual de capim para incorporação ao solo, na forma de matéria orgânica. É uma maneira natural de repor parte dos nutrientes extraídos do solo. “Meu sistema de produção está inserido no conceito de sustentabilidade. Aliás, os pecuaristas precisam começar a medir, quantificar, monitorar os prejuízos que causam ao meio ambiente com suas práticas de
alta produtividade”, alerta.

Nas águas, Cavalcanti trabalha com 1,5 a 2 UA/ha, mas a lotação cai para 1,1 UA/ha na seca, quando ele vende animais. “Sou um criador, não um invernista. Digo que tenho datas de venda e não pesos de venda, embora precise colocar o máximo possível de quilos nos animais até à chegada do período estipulado para comercialização. No ciclo completo, cada etapa de produção deve ser nota dez. Não adianta ter eficiência apenas na recria, por exemplo”, diz o agrônomo. Ele procura explorar todo o potencial produtivo do andropógon nas águas, porque esse capim suporta maior pressão de pastejo (mais kg de peso vivo por kg de matéria seca produzida), enquanto as braquiárias prestam-se muito bem ao uso na seca.

Sobre limpeza de pastos, Cavalcanti tem opinião formada: “Nunca comprei um litro de herbicida na minha vida, para não eliminar as leguminosas nativas. Faço apenas roçagem manual ou mecânica”. Como a incidência de vermes no rebanho é baixa, ele gasta pouco com vermífugos. Já os suplementos minerais são preparados na fazenda, devido ao menor custo e por se tratar de produto formulado pelo agrônomo para as condições específicas da propriedade. Além de sal branco, minerais e proteína verdadeira (farelo de soja), os suplementos ainda contêm monensina utilizada como coccidiostático.

O conforto em primeiro lugar

Convivência em pequenos grupos (cerca de 30 animais) resulta em maior ganho de peso

Convivência em pequenos grupos (cerca de 30 animais) resulta em maior ganho de peso

Para obter o melhor desempenho a pasto, os bovinos precisam de comida farta e muita tranqüilidade. O estresse pode gerar irritação, inapetência e, conseqüentemente, menor ganho ou até perda de peso. José da Rocha Cavalcanti leva o bem-estar animal muito a sério, pois seu sistema de produção depende de boas performances individuais. “Se c o l o c a rmo s quatro animais por hectare, ganhando 600 g/cab/dia, produziremos 2,4 kg/ha/dia. Se, no mesmo hectare, alojarmos apenas dois animais, dandolhes maior conforto e possibilidade de selecionar a forragem, poderão engordar
1,2 kg/cab/dia, garantindo ao produtor os mesmos 2,4 kg diários que ele obteria com a lotação dobrada”, argumenta
o pecuarista.

Cavalcanti garante conseguir nas águas (outubro a março), ganhos entre 1 e 1,4 kg/cab/dia em machos inteiros, com idade entre 22 e 27 meses, mantidos em pastos de andropógon com 22 ha cada e recebendo apenas
sal mineral. Claro que não se pode desconsiderar a participação do efeito compensatório e da qualidade genética dos animais nesse ganho, mas, segundo Cavalcanti, a principal explicação para um desempenho tão superior à média, que é de 600-800 g/cab/dia, está no tamanho reduzido dos lotes, compostos por no máximo 30 animais.

Esse número não é cabalístico, mas fruto de observações. “Os bovinos têm forte instinto gregário, mas pouca memória. Eles só gostam de viver ao lado de quem conhecem. Em lotes compostos por mais de 30 cabeças, eles perdem a noção de quem é quem no lote. Quando isso ocorre, ficam estressados e engordam menos”, relata o pecuarista, cujas idéias têm conquistado adeptos (veja quadro da página 58).

CADEIA DE VIRTUOSIDADES

Cavalcanti maneja os animais com visão de longo prazo para evitar estresse

Cavalcanti maneja os animais com visão de longo prazo para evitar estresse

Segundo Cavalcanti, quando os animais são agrupapos em pequenos núcleos, cria-se uma “cadeia de virtuosidades produtivas”: a taxa de fêmeas prenhes aumenta, nascem mais bezerros, que desmamam mais pesados e são abatidos mais cedo. Tudo isso porque eles vivem em situação de conforto. Cavalcanti utiliza uma fórmula clássica da nutrição na defesa de sua tese: a energia disponível para produção é igual à energia consumida pelo animal, menos a energia que ele usa para mantença corporal.

“Na literatura”, diz Cavalcanti, “encontramos apenas trabalhos relacionando demanda de energia para mantença com adaptabilidade ao ambiente, tamanho do bovino ou idade. Ninguém estudou ainda quanto essa demanda pode variar em função da qualidade da convivência do animal no lote. Se ela é confortável, harmoniosa, sobra mais energia para produção. Já constatei isso, várias vezes, a campo”.

A movimentação de lotes é feita com cautela e visão de longo prazo, para não provocar estresse. “O ideal seria que os lotes permanecessem o ano inteiro no mesmo piquete, mas isso nem sempre é possível por causa da necessidade de adequação da carga animal aos pastos”. Uma regra de ouro é não introduzir animais novos em grupos estruturados, compostos por indivíduos que já se conhecem e vivem juntos há algum tempo. É prejuízo na certa. Perde-se toda a seqüência de benefícios produtivos obtida até então, em função do bem-estar coletivo.

FORMAÇÃO DOS LOTES

José Cavalcanti valoriza muito o conceito de “família bovina”. As vacas permanecem com suas crias até os 10-12 meses. Ele não desmama os bezerros, por acreditar que o estresse da separação mãe-filho provoca na fêmea um dispêndio de energia maior do que o exigido pela amamentação. Deixa que o desmame ocorra naturalmente. A própria vaca afasta o bezerro quando sente que chegou o momento de pouparse para o novo filho que vai nascer. “Outro dia, vi dois bezerros mamando na mesma vaca, porque a mãe de um deles já estava em processo de desmama. Ele ali, satisfeito, e a mãe do amigo dando leite para os dois”, conta Cavalcanti.

Matriz IRCA amamenta dois bezerros: o seu próprio fiho e o da vaca ao lado, já em processo de desmama natural.

Matriz IRCA (à direita) amamenta dois bezerros: o seu próprio filho e o da vaca ao centro, já em processo de desmama natural. Família bovina unida engorda unida. O bezerro fica com a mãe até 10-12 meses. A desmama ocorre naturalmente.

A utilização desse método em nada prejudica a taxa de prenhez, que, nos últimos quatro anos, registrou média de 93% nas nulíparas (fêmeas que nunca pariram), 81,5% nas primíparas e 89,33% nas multíparas.

Quando elas estão perto de dar cria, os bezerros são transferidos para outro piquete, mas aí já estão desmamados e integrados ao grupo contemporâneo
(fêmeas e machos nascidos na mesma época). A separação por sexo somente é realizada em dezembro/janeiro, quando as novilhas completam 13-14 meses. Cerca de 20-40 são descartadas e as restantes destinadas à reposição.
A maioria entra em manejo de inseminação com 22-24 meses, e as que emprenham formam novo lote.

CUIDADOS ESPECIAIS

As primíparas são reunidas em grupos específicos, de no máximo 25 cabeças, e recebem cuidados especiais para garantir a reconcepção, que depende muito da boa condição nutricional no terço final da gestação. Por isso, elas são alojadas nos melhores pastos, formados com tanzânia e mombaça. Trata-se de um lote delicado, exigente, que deve ser manejado com carinho e tranqüilidade. Elas permanecem juntas até o diagnóstico de gestação, quando se faz um reagrupamento em função do índice de prenhez.

Como a fazenda está com o rebanho estabilizado, cerca de 200 fêmeas são vendidas anualmente: 40 na idade de sobreano, por questões técnicas; 120 já adultas, devido à pressão de seleção ou por estarem vazias, e 40 por terem alto potencial genético (fêmeas registradas). Já os machos passam por avaliação genética aos 15-17 meses. Aqueles que são classificados como tourinhos formam grupos à parte, e os demais permanecem juntos até que sejam vendidos para recria ou para o frigorífico.

Prova dos nove

José Henrique

José Henrique

José Henrique Pereira Martins de Andrade, proprietário da Fazenda Nova América, também no município de São Miguel do Araguaia, sempre ouvia Cavalcanti falar sobre as vantagens dos lotes pequenos, mas se mantinha cético.

Um dia, decidiu tirar a prova dos nove e descobriu que o vizinho tinha razão. Andrade tinha 59 bois erados (quase três anos), com peso de 450 kg, mas ainda magros (sem gordura de cobertura). Era final das águas (abril/maio), não havia mais como engordar os animais somente a pasto e ele decidiu semi-confiná-los. Ao mesmo tempo, colocou outro lote de 25 novilhos, 10 meses mais novos e 100 kg mais leves, num piquete à parte, suplementados apenas com sal mineral.

Depois de 67 dias, o lote semi-confinado havia engordado 102 kg/cab, ao custo de R$ 239/cab. Já o segundo registrara o mesmo ganho de peso (102 kg), ao custo de R$ 8/cab. Técnicamente, esses dois grupos não poderiam ser comparados, porque tinham peso e idade diferentes, mas a experiência, segundo Andrade, foi reveladora.

“Hoje, acredito que a divisão dos animais em lotes pequenos melhora o ganho de peso”, diz o produtor, cuja fazenda tem 1.704 hectares e abriga 2.000 cabeças. Andrade também faz ciclo completo e se diz integrante da classe de pecuaristas que “carrega a carga nas costas, ou seja, não é dono de banco, não tem outras fontes de renda, nem vive na ilha da fantasia”.

Como seus pastos ainda são relativamente grandes, ele não consegue trabalhar apenas com lotes pequenos, mas se pudesse não hesitaria: os animais tornam-se mais produtivos, são mais fáceis de manejar e ficam menos estressados.

Menos estresse, mais produção.

A organização social dos bovinos a pasto em nada se parece com a hierarquia existente num batalhão militar, no qual o sargento dá ordens e os soldados obedecem. Assemelha-se mais com a de uma equipe, um time. Por isso, se o pecuarista separa animais que se dão bem juntos, desestrutura o grupo.

“É como se, numa equipe de futebol entrosada, o zagueiro se machucasse. Nesse caso, quem vai desempenhar sua função? Ele pode não ser o líder do grupo, mas desempenha um papel fundamental. A convivência diária, a distribuição de tarefas, os papéis vão ter de mudar.

Já observei que esses papéis, depois de estabelecidos, geralmente são mantidos. Evito mexer até nos vizinhos de pasto, para não gerar estresse, que reduz o ganho de peso”, explica Cavalcanti.

Publicado por: neloreirca | 24-Novembro-2008

Vaqueiro conduz a vara, importante instrumento de manejo.

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Donizete dos Reis, capataz do Nelore IRCA, na Fazenda Providência do Vale Verde, em São Miguel do Araguaia, GO, conduz a vara, instrumento facilitador do manejo dos animais.

Vaqueiro que segue na frente "ponteiro" do lote de animais, conduz a vara direcionada para cima, facilitando a visualização de todos os animais do lote para a direção na qual serão conduzidos.

Vaqueiro que segue na frente "ponteiro" do lote de animais, conduz a vara direcionada para cima, facilitando a visualização de todos os animais do lote para a direção na qual serão conduzidos.

 

O vaqueiro que segue atrás "culatra" do lote, com a vara direcionada para cima, facilitando a visualização dos animais do seu posicionamento.

O vaqueiro que segue atrás "culatra" do lote, com a vara direcionada para cima, facilitando a visualização dos animais do seu posicionamento.

Publicado por: neloreirca | 21-Novembro-2008

Dicas de Manejo Pré-Embarque e Pré-Abate

Do Pasto ao Embarque:

  1. Em climas de temperaturas elevadas, deve-se escolher os horários menos quentes, para locomover os animais do pasto ao curral de embarque.
  2. Ao movimentar os animais, deve-se colocar um vaqueiro atrás do lote e outro na frente “como guia” para direcionar e acalmar os animais no trajeto até o curral.
  3. É interessante que os vaqueiros conduzam uma vara leve de mais ou menos 1,50 m, direcionadas para cima, de modo facilitar a visualização e localização deles pelos animais.
  4. Não é recomendável o uso de vara com ferrão nem mesmo cutucar os animais com a vara, estas devem ser usadas unicamente para melhorar a visibilidade dos vaqueiros pelos animais.
  5. Preferencialmente, deve-se formar as escalas de abate, com animais de mesmo padrão racial, pesos, idades e sexo, evitando-se contusões geradas por brigas.
  6. Levando-se em conta as distâncias da fazenda ao frigorífico deve-se fechar o lote no curral 6 a 12 horas antes do embarque. Seria interessante ter água de boa qualidade à disposição dos animais.
  7. Essa permanência no curral antes do embarque além de outros benefícios, favorece a movimentação e apartação dos animais, facilitando as pesagens pré-embarque e a colocação deles no caminhão, evitando o uso de “choques”.

No caminhão, entre a fazenda e o frigorífico:

  1. Tão ou mais importante quanto esse período de “descanso” no curral da fazenda, serão os 30-40 minutos (tempo para tomar um café) que o caminhoneiro deverá esperar para iniciar a viagem após o embarque. Isso ajuda os animais a se acomodarem no veículo diminuindo o risco de lesões de transporte promovendo um menor nível de stress, o que comprovadamente, tem-se um maior índice de aproveitamento para o abate.
  2. Outro importante ponto é a densidade de carga no caminhão. Hoje já encontramos vários tipos de caminhões, desde os tradicionais “caminhões boiadeiros”, tipo “truque” até os “cavalos mecânicos” que rebocam carretas longas ou com dois andares, “bi-trens”, entre outros, com variadas dimensões de área útil para os animais.
  3. Do ponto de vista econômico, procura-se transportar os animais empregando alta densidade de carga, no entanto, este procedimento tem sido responsável pelo aumento das contusões e estresse dos animais, sendo inadmissível densidade superior a 550Kg/m2 (TARRANT et al., 1988,1992). No Brasil, a densidade de carga utilizada é em média de 390 a 410Kg/m2 (Roberto de Oliveira Roça,2002).

No frigorífico:

  1. O monitoramento do tempo ideal compreendido entre a saída do pasto e o abate, (horas no curral da fazenda antes do embarque + horas de viagem + permanência no curral de descanso no frigorífico), é importante para haver o esvaziamento do conteúdo gástrico, diminuindo as chances de contaminação da carcaça no momento da evisceração.
  2. É muito importante que os animais tenham à disposição água de boa qualidade no curral de descanso do frigorífico, favorecendo a dieta hídrica necessária para que eles se recuperem totalmente das perturbações surgidas pelo deslocamento da fazenda até o frigorífico.
  3. O período de descanso aliado à dieta hídrica, favorecerá a hidratação do corpo do animal, facilitando a esfola, diminuindo as chances de rupturas do couro e, promovendo a recuperação das taxas de glicogênio no músculo, melhorando a qualidade da carne.
  4. A recomendação técnica é de que os animais devem permanecer em descanso por 24 horas nos currais do frigorífico, com jejum, banhos com aspersão (para reduzir a excitação dos animais e a vaso-constrição sangüínea periférica) e dieta hídrica. Podendo este período ser menor (mínimo de 12 horas) em função da distância percorrida.
  5. A movimentação dos animais do curral de descanso ao “corredor da ducha pré-abate” deverá ser feita com bastante calma, usando uma pequena vara com bandeira na extremidade, evitando-se o uso do “choque”.

Considerações finais:

  1. Procure obter informações sobre a idoneidade dos proprietários dos frigoríficos que atuam na sua região. Selecione os que demonstram respeito aos seus fornecedores e cliente.
  2. Invista no relacionamento pessoal com a equipe de compra do frigorífico. Lembre-se que seu produto tem um diferencial de qualidade e isto precisa ser demonstrado, comprovado e reconhecido por esta equipe.
  3. É muito importante que você identifique “sintonia” entre o que você produz com qualidade e as boas práticas e processamentos industriais utilizados pelo frigorífico para entregar ao consumidor esse produto diferenciado. Um alimento nobre que agrega segurança alimentar e responsabilidades em relação às condições sociais dos que trabalham e preservação dos meios de produção.

Este artigo foi publicado no portal BeefPoint em 07/10/2008, com a colaboração de Bruno Monteiro.

Publicado por: neloreirca | 21-Novembro-2008

Selecionar o quê? DEPs ou produção?

Exaltação de programa de melhoramento exige reflexão profunda

Estamos vivendo um momento de exaltação dos Programas (de melhoramento) de Publicação das DEPs (Diferenças Esperadas na Progênie). Os animais, para serem reprodutores, não precisam pertencer a uma determinada raça, não precisam do histórico reprodutivo ou de desempenho – o que não pode faltar é a DEP.

Em todos os sumários há a definição clássica do que seja a DEP: se o touro A tem uma DEP +10 para peso à desmama e o touro B, -10, isso significa que os filhos do touro A serão, na média, 20 kg mais pesados na desmama do que os filhos do touro B.

Quem se candidata a pôr a mão no fogo para garantir que isso não é uma heresia científica?

Com a popularização do computador e os programas livres disponíveis na internet, qualquer pessoa bem intencionada pode obter as DEPs de seus animais. E daí? Será que a DEP vai aumentar a minha produção? Alguém já perguntou ao vendedor de touro ou sêmen com DEP, qual o valor da indenização caso isso não aconteça?

Não estou querendo dizer que a DEP é uma mentira, muito menos que é inútil. Mas não podemos aceitá-la da maneira como está sendo comercializada.

Precisamos ir mais fundo, questionar a maneira como está sendo calculada. A transparência de como os dados estão sendo manipulados. Em que nível de cientificidade ou superficialidade ela está sendo elaborada? Que conjugações dos modelos estão na composição das avaliações? Que cuidados estão sendo tomados para que determinados touros não estejam com suas informações viesadas. Quais os critérios que estão sendo utilizados na definição de grupos contemporâneos? Que fatores estão corrigindo diferenças ambientais? Qual o grau de conscientização do pessoal de campo, quanto à responsabilidade zootécnica, na coleta das informações, que serão enviadas e demandarão horas e mais horas de computação para comporem um banco de dados confiável? E os técnicos que estão no laboratório de informática – já tiveram algum contato com currais e animais?

Não é difícil se manter o “status quo” de determinados touros nos diversos sumários, para que, não havendo discordância grave, se mantenha a credibilidade. Como também, torna-se confortável seguir a “cartilha”, usar nos acasalamentos os touros que produzem “DEPs” nas suas progênies e “lavar as mãos” da responsabilidade de que genética você está passando para o seu cliente.

Há maneiras de se calcular a DEP até para o berro do boi, através da quantificação dos decibéis de cada um, mas e daí? Para quem, e que, estará servindo essa quantidade de DEPs (pesos aos 120, 240, 420 dias, ganhos pré e pós-desmame, IPP, MPG, DPA, PE365, PE455…….)?

Qual delas vai proporcionar a produtividade que atenda a nossa expectativa?

Precisamos selecionar animais que sejam eficientes em produção de carne em sistemas compatíveis com nossas realidades, isto é, que proporcionem uma maior renda líquida para o produtor.

O foco deve estar nas características de relevância econômica e todo esforço deve estar dirigido na elaboração da DEP que reflita animais mais produtivos em seus diferentes sistemas de produção, direcionados para os seus distintos mercados.

Comercialização de genética requer responsabilidade de todos envolvidos ou estaremos contribuindo para um crime de lesa-pátria.

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José da Rocha Cavalcanti é agrônomo e selecionador do Nelore Irca em São Miguel do Araguaia, GO.

Artigo publicado originalmente na Edição 2004 do Anuário DBO Genética e no portal BeefPoint, em 10/09/2004, com 11 cartas comentando o artigo.

Publicado por: neloreirca | 21-Novembro-2008

Formação de lotes é boa estratégia no manejo racional

A pecuária de corte está sempre desafiando seus administradores quando da tomada de decisões, para obtenção de bons resultados. Em sua ação cíclica, essa atividade enfrenta momentos em que as margens de ganho tornam-se pequenas. Mantendo o negócio sob controle, nas fases favoráveis, pode faze-lo deslanchar, provendo a estabilidade da exploração.

Em geral, a discussão sobre o modo de operar a pecuária se estabelece com base em duas formas: a extensiva e a intensiva.

A extensiva, freqüentemente identificada com o pastejo fixo, nem sempre é bem conduzida. Na maioria das vezes, é desenvolvida em ambiente deficitário de infra-estrutura, administrando uma manutenção de estoque do rebanho (reserva de capital) com baixas expectativas de produção.

A intensiva, identificada com a adoção do pastejo rotacionado, visa a maximizar a produção por área e, por isso, atrai irresistivelmente a atenção dos pesquisadores. Para seu desenvolvimento, entre outras exigências, requer um maior aporte de capital investido, uma maior utilização dos insumos “dolarizados” e mão-de-obra mais especializada. Com isso, à exceção dos módulos pequenos, operados por mão-de-obra familiar, quase sempre termina por gerar renda negativa, principalmente por não contar com uma âncora cambial nas arrobas produzidas para atrelar aos insumos exigidos.

Pessoalmente, prefiro uma abordagem diferente na forma de conduzir o negócio da pecuária de corte: eficiência produtiva. É o que busco na Fazenda Providência do Vale Verde, em São Miguel do Araguaia, GO. A busca dessa eficiência produtiva pressupõe a utilização moderada dos insumos, infra-estruturas de bom retorno do capital investido e melhor desempenho de mão-de-obra, que resulte num maior número de animais bem assistidos por cada vaqueiro. Como objetivo se persegue a produção ótima, em vez da produção máxima. O mais importante, é maximizar as receitas líquidas.

Para tanto, utilizamos o sistema de pastejo fixo, com carga variável, respeitando a convivência estabelecida entre os animais nos seus respectivos lotes. Isso significa que, quando se precisa alterar a pressão de pastejo de um determinado pasto, se troca os lotes (representando cargas animais diferentes) dos pastos sem alterar a sua composição, isto é, sem alternar ou substituir os animais de cada lote. Um monitoramento mensal, por meio de notas para avaliar as condições do capim (quantidade de folhas) e o estado corporal médio dos animais de cada lote, é que indica o momento de se fazer às trocas.

Ao reduzir o estresse, estamos diminuindo a quantidade de energia utilizada para a mantença corporal, direcionando um saldo maior da energia consumida, para a produção. Esta maior produção, causada indiretamente pelo conforto animal, constitui a base da eficiência produtiva.

Entre outros fatores, o conforto animal está diretamente relacionado com o tempo gasto pelo animal para realizar a sua dieta, pela facilidade de acesso ao bebedouro e cocho de sal e pelas condições para estabelecer o seu grupo de convivência. Os bovinos têm o instinto gregário, gostam de viver em grupos de animais da mesma espécie, limitados a um determinado número, nos quais cada conhece o outro. Ao adequar o número de animais à capacidade de memorização de quem é quem no lote, proporcionamos uma convivência harmoniosa entre eles, que, então, podem expressar o seu comportamento natural, sem medo de sofrimentos, facilitando a sua locomoção e descanso.

Estudos recentes dão conta de grupos naturais de bovinos, formados por 12 animais, na África. Na Providência do Vale Verde, temos trabalhado com 25-30 cabeças para formar lotes de vacas (bezerro mamando não conta), e com 18-20 animais para as categorias mais exigentes, como as primíparas e vacas com mais de dez crias. Bezerras desmamadas representam a categoria mais importante na composição de um rebanho produtivo – porque têm definido seu desempenho reprodutivo com a qualidade de vida e alimentação no pós-desmama – e, por isso, seus lotes não devem ultrapassar 30 cabeças.

Garrotes machos inteiros, devido ao feromônio (hormônio masculino), têm sua capacidade de memorização prejudicada, chegando a causar ferimentos nas patas traseiras de tanto que montam um no outro, tentando definir quem é quem no lote. Para essa categoria, o lote ideal é de 20-25 cabeças.

Ao agrupar os animais, deve-se dar prioridade para que sejam da mesma espécie, idades ou categorias semelhantes, e que estejam no mesmo estágio reprodutivo (fêmeas paridas ou solteiras, por exemplo). Em princípio, esses lotes, uma vez formados, devem ser definitivos, para usufruírem ao máximo do benefício da sociabilidade estabelecida. Nulíparas e primíparas, geralmente, são reagrupadas após diagnósticos de gestação, quando se trabalha com uma estação de monta definida, para se manter a uniformidade do estágio reprodutivo.

Uma dica importante: se for necessário reorganizar os lotes, com mudança de alguns animais, a melhor época é na floração do capim. Com a massa abundante, dando indicação da fartura de comida, os animais tornam-se bem mais sociáveis.

Com esse manejo a Fazenda Providência do Vale Verde, está produzindo 7,5 @ de carne / ha de capim/ano (225 Kg de Peso Vivo/ha de capim). A média brasileira é 40 Kg de PV/ha.
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José da Rocha Cavalcanti é engenheiro agrônomo, integrante do GAMA, selecionador do Nelore Irca, em São Miguel do Araguaia/GO.

Esse artigo foi originalmente publicado na revista DBO Rural e no portal BeefPoint em 19/11/2004.

Publicado por: neloreirca | 21-Novembro-2008

Melhoramento para o lucro requer mais que mudança genética

Por meio da seleção, é relativamente fácil chegar a mudanças genéticas. Basicamente, a seleção leva à mudança simultânea de um número de características correlacionadas, e numa direção determinada.

No entanto, o melhoramento genético para maior lucratividade já é mais difícil de se alcançar. Isso porque se exige que haja um valor econômico agregado nas mudanças de características individuais favoráveis.

É bom frisar um conceito: o melhoramento genético não ocorre por acaso nem em função dos dados de pedigree ou de desempenho e nem mesmo pela elaboração de Sumários das DEPs (Diferenças Esperadas na Progênie) de Touros.

Apenas ocorrerá melhoramento genético de um rebanho, quando aquele que decide os acasalamentos tem objetivos claros e bem determinados, sabe o que realmente influencia na lucratividade da produção. Isso implica conhecimento dos sistemas de produção, formulados a partir dos sinais do mercado, transmitidos ao longo da cadeia, desde os procedimentos na alimentação nas fases de cria, recria e acabamento, até o rendimento da carcaça ao abate e a satisfação final do consumidor.

A propósito, é bastante recomendável a leitura do trabalho de D.J. Garrick e R.M. Enns, How best achieve genetic change? (Qual o melhor caminho para atingir a mudança genética?) , editado pelo Departmento de Zootecnia (Animal Sciences), da Universidade do Estado de Colorado, em Fort Collins, nos EUA.

Todos temos diante dos olhos as mudanças genéticas ocorridas nas últimas duas décadas, reveladas nos programas de avaliação genética da raça Nelore. Vários sumários contemplam seus leitores com gráficos que demonstram a evolução das características, como pesos nas várias idades, perímetro escrotal, facilidade de prenhez etc. Em todos os programas, fica evidente a ênfase dada às medidas de crescimento.

No entanto, convém um alerta: a seleção por meio das características de crescimento tende a aumentar os pesos em qualquer idade, incluindo o observado ao nascimento. Com isso, amplia-se o risco de problemas ao parto, aumenta-se o tamanho das vacas – com acréscimo nos custos de alimentação para sua manutenção – e se diminui o desempenho reprodutivo das matrizes. Com um agravante: o impacto dessas mudanças no lucro não fica claro imediatamente. Pior: não está havendo preocupação em quantificar o que tais mudanças significam em perdas.

Na maioria das vezes, quem paga os altos custos dessas mudanças genéticas não é quem avalia, produz ou comercializa reprodutores ou sêmen.

Temo que, apesar de toda euforia em torno das DEPs – é claro que reconheço seu valor -, elas estejam sendo elaboradas sem uma visão intrínseca da natureza, escopo e responsabilidade a longo prazo. Elaboram-se DEPs de forma previsível, de características fáceis de serem coletadas, como pesos à desmama e ao sobreano e perímetro escrotal. Adicionam-se outras, como facilidade de prenhez à idade precoce, etc. Mas que conseqüência terá a seleção dessas características na lucratividade de rebanhos produtores de carne?

Às vezes, tenho a impressão de que alguns dos programas de avaliação genética estão em busca das DEPs como um fim, em vez de usá-las como instrumento para se alcançar determinado objetivo. Nós precisamos criar ferramentas que nos levem a aumentar a lucratividade na produção de carne e não ficarmos limitados às já disponíveis, mas que se revelam não de todo adequadas.

Recentemente ouvi do diretor comercial de uma grande empresa de comercialização de sêmen que ele próprio acasalava milhares de fêmeas anualmente, e nunca usara os dados dos sumários para decidir que touros usar, embora sua equipe de vendas estivesse sendo exaustivamente treinada para vender em cima dos dados dos Sumários.

Apesar do paradoxo, esse diretor tem consciência de que seus clientes encontram mais satisfação nos fenótipos do que nas DEPs. Sua atitude é mais confortável na interpretação do desenvolvimento do fenótipo do que nos das DEPs.

Hoje, ao eleger-se um reprodutor porque sua DEP para peso ao desmame é altamente positiva, também se está promovendo um aumento correlacionado do tamanho da vaca adulta e, conseqüentemente, impondo acréscimos nos requerimentos de alimentação para mantença corporal. Estaremos, assim, aumentando as exigências totais de alimentação. Ora, se temos excedentes disponíveis de pastagem para dar suporte a essas vacas maiores, o gerenciamento econômico fatalmente nos levará a concluir que o melhor será aumentar o número de vacas de porte médio na mesma área de pasto. Diante disso, estaríamos na contramão da lista dos touros líderes para peso ao desmame.

Como outro exemplo, a stayability (permanência produtiva da fêmea no rebanho aos 8-10 anos de idade) estaria comprometida pelo mesmo motivo das altas taxas de exigências nutricionais correlacionadas ao maior tamanho das vacas.

A despeito da existência de um considerável conhecimento dos custos econômicos na produção – desde o nascimento do bezerro, recria, sistemas de acabamento a pasto para o frigorífico e/ou confinamento, exigências nutricionais para mantença corporal -, nenhuma dessas informações está disponível de pronto, num formato que possa assessorar o produtor na identificação de quais características lhes serão importantes no momento de eleger o reprodutor que cobrirá as matrizes.

Com a crescente lista das DEPs, não faz sentido sufocar o pecuarista ou comprador de touros com essas informações sem a devida pesquisa quanto às reais conseqüências de sua utilização no rebanho. Os instrumentos disponíveis ressentem-se da falta de um conhecimento científico maior. Deve existir uma via melhor para captar os conhecimentos de outros cientistas, tais como nutricionistas, administradores e economistas. E facilitar ao tomador de decisões, na fazenda, a escolha de que touro usar, em determinado sistema de produção, para otimizar suas receitas líquidas.

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José da Rocha Cavalcanti, engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal de Viçosa em 1974, selecionador do Nelore Irca em São Miguel do Araguaia, GO

Esse artigo foi originalmente publicado na revista DBO Rural e no portal BeefPoint em 06/03/2006.

Publicado por: neloreirca | 30-Setembro-2008

Homozigose, Prepotência Genética, Produtividade

Pelos anos de 1942, os irmãos Rocha Cavalcanti (Fernando e Carlos), representando a terceira geração de uma família que criava Nelore desde 1916, priorizaram na seleção do Nelore IRCA os acasalamentos na mesma linha de sangue (“line-breeding”) com animais herdados de seu pai o Dr. José da Rocha Cavalcanti (Dr.Juquinha), vindos de seu avô o cel. Carlos Benigno Pereira de Lyra e nelore adquiridos entre outras origens como do pioneiro Pedro Marques Nunes e da tradicional criação do Dr. Otávio Machado no Estado da Bahia (“OM”).

Hoje em São Miguel do Araguaia – Goiás, José da Rocha Cavalcanti – sucessor do rebanho IRCA – prossegue num programa de criação que tem por objetivo o melhoramento das características econômicas da raça, procurando oferecer animais aptos para reprodução, na medida do possível, de homozigoticidade conhecida, isto é, animais que estejam de acordo com o padrão, possuam características semelhantes herdadas tanto da mãe quanto do pai e sejam parentes sangüíneos relativamente próximos.

Uma fórmula de criação bastante simplificada, de modo de que os resultados, sejam assegurados. A simplificação da fórmula de criação é alcançada através de cruzamento dentro da mesma linha de sangue, seja através do “inbreeding” (parentesco muito próximo) ou do “line-breeding” (relação de parentesco menos estreita).

Segundo trabalhos de alguns pesquisadores como Humphrey, Warner, entre outros, têm-se as seguintes recomendações, para se obter uma linhagem definida dentro da raça com o tipo e características semelhantes:

  1. Decidir quais as poucas características essenciais e defeitos intoleráveis. Entre as essenciais, devem ser incluídas: Fertilidade, Rusticidade, Precocidade, Temperamento.
  2. Desenvolver um sistemático planejamento dentro do qual as qualidades e os defeitos sejam tratados em face do objetivo de cada criação, com especial ênfase para os pontos individuais que necessitam ser aperfeiçoados.
  3. Deve ser prolongado persistentemente o “line-breeding” dos animais destaques, que pelo teste de progênie, demonstram ser melhoradores para as características de importância econômicas presentes na linhagem. O “ïnbreeding” se faz quando o animal utilizado possui qualidades marcantes. Quando necessário, poderá ser feito um “out crossbreeding” (acasalamento de não parentes) para tentar obter características que não estejam presentes nos genótipos das famílias iniciais.

O criador que se dispõe a seguir essas orientações não estará isento dos muitos desafios que terá pela frente. Freqüentemente ocorre que o reprodutor de melhor aparência e que se destaca em exposições não é o melhor padreador. O mesmo se aplica às fêmeas; para se chegar à matriz superior ele terá tantos acertos quantos erros, devendo selecionar a que lhe pareça mais fértil, feminina e mais perfeita quanto ao tipo padrão, não se esquecendo que encontrará animais com falhas de maior ou menor importância. As falhas menores serão eliminadas com acasalamentos posteriores.

Varedo 1433 IRCA, filho de sua avó (Ipojuca 157 IRCA que aos 17,5 anos de idade desmamou sua 14a. cria, SUPERIOR no CDP-ABCZ), irmão de seu próprio pai, ótima conformação frigorífica e com filhos bem avaliados nas características de carcaça.

Varedo 1433 IRCA, filho de sua avó (Ipojuca 157 IRCA que aos 17,5 anos de idade desmamou sua 14a. cria, SUPERIOR no CDP-ABCZ), irmão de seu próprio pai, ótima conformação frigorífica e com filhos bem avaliados nas características de carcaça.

O porque desta seleção?

O objetivo real de toda seleção é elevar a média de produtividade de uma raça, procurando obter uma população homogênea (menor desvio padrão) próxima do biótipo ideal, de alto desempenho na condição de pasto.

Deverão estar presentes as características essenciais como: Fertilidade, Rusticidade, Longevidade Produtiva, Temperamento, pois sem estas a criação estará fadada ao desastre. Falta de Fertilidade e Rusticidade acarreta descontinuidade e aumento do custo, o que inviabiliza a criação. A longevidade produtiva é importante na medida em que um animal de grande valor na reprodução precisa ser útil por muito tempo, após sua importância haver sido reconhecida através da sua progênie. Finalmente o Temperamento é de grande importância para a produção de carne com qualidade, pois representa a facilidade do manejo.

O que todo criador deseja ao adquirir um tourinho para seu rebanho é que ele possua PREPOTENCIA, que como descreve J.L.Lush, é a capacidade de imprimir as suas características nos seus filhos, de tal forma que estes com ele se pareçam, ou se assemelhem entre si, mais intimamente do que é comum.

Não é tarefa fácil desenvolver “prepotência” em uma seleção, isto porque muitas características desejadas são o resultado da combinação de mais do que um par de genes para esta herança, o que torna o resultado menos preciso. Em segundo lugar, selecionamos animais com várias características o que torna o trabalho extremamente difícil, porque nesse caso teríamos centenas de combinações genéticas possíveis, mesmo se cada característica fosse determinada por um único par de genes, o que é improvável.

Por isso acreditamos que o mais rápido método de se obter “prepotência” para as características a respeito das quais estamos interessados, é praticando “line-breeding” e uma seleção cuidadosa.

Se você tem três gerações de boa cobertura de carne na retaguarda de um touro, e seus parentes também o são de boa cobertura, as chances são grandes de que ele venha a ser prepotente para essa característica. Se ele e todos os parentes têm todas as características que você deseja, as chances são boas de que o tourinho de fato será prepotente para todas elas.

O Nelore IRCA proporciona oportunidade de acasalamentos dirigidos com animais de outras linhagens, visando a introdução de novos alelos no rebanho, sem perda de qualidade fenotípica.

Teríamos um aumento de diversidade genética com a introdução de alelos mais raros na nova população.

Esta é a razão pela qual o Nelore Irca permanece com um programa de seleção, priorizando os acasalamentos com animais que se destacam nas avaliações, visando alcançar índices zootécnicos superiores (fertilidade e acabamento de carcaça com ciclo curto) mantendo-se o foco no pioneirismo e tradição de priorizar alta produtividade com baixo custo.

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Por Engº Agrº José da Rocha Cavalcanti.

Esse artigo foi publicado em 1986, inspirado pelo artigo de “Consangüinidades. A Criação de Cães da Mesma Linha de Sangue”, de José Walter Santos Ferro, Criador e Juiz de Criação e Seleção da SBCPA.

A escolha de animais para seleção leva em conta fatores externos, como o ambiente, e internos, a exemplo da consangüinidade. Em ambos os aspectos, de acordo com Maurício José de Lima, gerente de desenvolvimento de produtos da Lagoa da Serra, o Nelore IRCA, produzido na Fazenda Providência do Vale Verde, em São Miguel do Araguaia, GO, do engenheiro agrônomo José da Rocha Cavalcanti, apresenta diferenciais importantes tanto para selecionadores de Nelore PO quanto para os voltados a rebanhos comerciais.

“A seleção IRCA, além de ser selecionada a pasto, apresenta outra grande contribuição: trata-se de famílias selecionadas há mais de 80 anos de linhagens abertas, pouco utilizadas no nelore brasileiro, representando, portanto, uma alternativa para evitar a consangüinidade, que tem apresentado níveis preocupantes no nelore brasileiro”, justifica Lima, primeira pessoa a contratar um touro IRCA para coleta em central de inseminação artificial.

Outra vantagem, em sua opinião, é a seleção nacional: “Para quê buscar animais na Índia, correndo riscos sanitários, se existem linhagens selecionadas aqui mesmo no Brasil, como é o caso do Nelore IRCA?”, reforça.

Para produtores de bezerros comerciais, a contribuição do IRCA, na avaliação de Lima, responde a uma recomendação encontrada há muito tempo nos manuais de melhoramento: a avaliação dos reprodutores no mesmo ambiente em que seus filhos serão criados. “Sabemos que mais de 80% de toda a carne brasileira são produzidos a pasto. Não há, então, porque selecionar animais “arraçoados” se seus produtos serão terminados em pastagens. Esse é um dos grandes diferenciais do Nelore IRCA”, acrescenta.

Publicado por: neloreirca | 17-Agosto-2004

Nelore IRCA seleciona qualidade da carne produzida a pasto

Em breve, dados coletados por meio da ultrassonografia no rebanho do Nelore IRCA, produzido na Fazenda Providência do Vale Verde, em São Miguel do Araguaia, GO, do engenheiro agrônomo José da Rocha Cavalcanti, possibilitarão aos criadores conhecer melhor esses animais em termos de eficiência de carcaça.

De acordo com o responsável pela coleta dos dados, Fabiano Araújo, diretor da AVAL, o procedimento permite boa acurácia. Ele explica que a ultrassonografia capta imagens da área de olho de lombo, avaliando musculosidade (rendimento de carcaça quente e de desossa) e acabamento, e da garupa do animal, que avalia a EGP8 (Espessura de Gordura Ponto 8), possibilitando avaliar gordura e acabamento. Em termos de melhoramento, ele atesta que a utilização da ultrassonografia é recente, mas, para pesquisas, está disponível no Brasil desde 1992/94.

Sobre a adoção da ultrassonografia por Cavalcanti, Araújo afirma que, além do pioneirismo, o criador já vislumbra a demanda que pode existir daqui a dez ou 15 anos. Ele destaca que, apesar de não haver trabalho comparativo do IRCA com outros rebanhos, devido a sua variabilidade, Cavalcanti conseguirá animais de qualidade dentro da linhagem. Para selecionadores de Nelore PO, ele acredita que o IRCA pode contribuir em termos de habilidade materna. Já para produtores de bezerros comerciais, em termos de rusticidade e precocidade.

Entusiasta

“É um rebanho muito diferenciado, com poucas amarrações com rebanho de fora, pois foram utilizados animais próprios da fazenda, com grau razoável de consangüinidade”. Este é a definição que Luiz Alberto Fries, professor da Unesp Jaboticabal e responsável pela avaliação genética do Nelore IRCA, atribui à linhagem.

Fries valoriza a genética do IRCA – “Quando saem do rebanho, esses animais produzem melhor ainda do que dentro do rebanho” – e enxerga na seleção características particulares de manejo, do ponto de vista de produção, além de idéias inovadoras de comportamento animal.

“São extraordinários, um trabalho muito bom para animais precoces, com boa musculatura. Tenho confiança no que vi: serão animais muito interessantes”, completa, comentando que essa atitude inovadora facilita na busca de soluções para situações em que é difícil diferenciar o que é ambiental e o que é genético na seleção.

O professor acaba de receber informações genéticas que, após análise, “contribuirão para a continuidade desse criterioso trabalho de seleção do IRCA”.

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